Humanoide de código aberto: RoboParty apresenta o RP1 e promete liberar até o projeto do corpo
A startup chinesa RoboParty apresentou o RP1, um humanoide de 1,3 metro que promete abrir ao público desde o desenho mecânico até o software de controle. Por enquanto, porém, boa parte da promessa ainda está no papel.
A RoboParty, empresa de robótica fundada em Xangai em 2025, mostrou o RP1 (também chamado de ROBOTO 01) durante o IROS 2026, um dos principais congressos de robótica do mundo, em 28 de setembro. Em um comunicado distribuído no dia 16 de outubro, a companhia descreveu o robô como uma plataforma humanoide de pilha completa em código aberto, voltada a pesquisadores, professores e desenvolvedores de inteligência artificial embarcada, aquela que controla um corpo físico em vez de apenas responder em uma tela.
O que é o RP1
O modelo padrão tem cerca de 1,3 metro de altura e 24 graus de liberdade nas articulações, número que não inclui as mãos. Há ainda uma versão Pro com 30 graus de liberdade, que acrescenta um pescoço de dois eixos e dois braços de sete eixos cada, pensada para pesquisas de interação com pessoas e coleta de dados para treinar modelos de IA. As articulações usam atuadores desenvolvidos pela própria empresa, chamados ROMOMO, que segundo a RoboParty entregam torque de pico de até 160 N·m. Esse é um valor de pico, que não diz nada sobre quanto tempo o robô consegue sustentar esforço. A empresa também prevê uma mão com dedos articulados como item opcional, além de cabeças e punhos intercambiáveis.
No estande do congresso, a RoboParty exibiu uma demonstração chamada "Kick Me", na qual os visitantes empurravam e chutavam o robô, que ajustava a postura e recuperava o equilíbrio. A empresa afirma que o sistema também consegue se levantar depois de uma queda e acompanhar movimentos humanos. Não houve, até agora, nenhuma avaliação independente desses resultados.
Como o software aprende a andar
O cérebro do RP1 é o PartyOS, um sistema que reúne controle do corpo inteiro, teleoperação por realidade virtual e ferramentas para registrar e reproduzir movimentos. Dentro dele está o UFO, um método de treinamento por aprendizado por reforço sem supervisão: em vez de seguir trajetórias desenhadas à mão, o robô descobre sozinho, em simulação, como transitar entre habilidades, resistir a empurrões e voltar a ficar de pé. Depois, o que foi aprendido no computador é transferido para o corpo real, etapa conhecida na área como "sim-to-real" e que costuma ser a mais difícil.
O que é realmente aberto
É aqui que o discurso e a prática se separam. A RoboParty promete liberar o desenho do corpo, a estrutura mecânica, os módulos de atuadores, drivers, firmware, algoritmos de controle, ambientes de simulação, kits de desenvolvimento e ferramentas de treinamento. A companhia sustenta que seria o primeiro humanoide bípede de alto desempenho com pilha completa aberta, mas essa é uma afirmação da própria empresa, sem confirmação de terceiros.
Ao consultar o repositório do RP1 no GitHub, o que se encontra hoje é uma página de apresentação, com imagens, um README em inglês e outro em chinês e a licença GPL-3.0, que o próprio texto diz valer só para o repositório geral, já que cada subprojeto terá a sua. O projeto lista nomes de subrepositórios para hardware, implantação e treinamento, e a seção de demonstrações aparece marcada como "em breve". A publicação RuntimeWire chegou à mesma conclusão: por ora são materiais de apresentação, e não a pilha de engenharia completa. Vale lembrar que o projeto anterior da empresa, o RPO, lançado em janeiro de 2026, foi de fato publicado e passa de 2,5 mil estrelas no GitHub, o que sugere que a abertura gradual é plausível.
O que isso significa para quem acompanha robótica
Humanoides costumam ser caixas-pretas caras, vendidas por empresas que guardam o projeto a sete chaves. Uma plataforma que de fato publique plantas, lista de peças e código poderia permitir que universidades e makers construam, estudem e modifiquem o próprio robô, algo parecido com o que o Arduino e o Raspberry Pi fizeram com a eletrônica. Para o Brasil, onde importar um humanoide comercial é caro, a importância estaria justamente nessa possibilidade de aprender com um projeto aberto, ainda que montar um robô desse porte continue exigindo orçamento e conhecimento técnico consideráveis.
Preço, peso, bateria e capacidade de processamento não foram informados nas fontes consultadas. A empresa diz que detalhará o roteiro de abertura ainda em outubro e que um programa de produção em massa deve vir mais adiante, no quarto trimestre de 2026. O que vale acompanhar nas próximas semanas é se os arquivos de hardware e o código de controle aparecerão de verdade nos repositórios, porque é isso que vai separar um robô aberto de um robô apenas bem divulgado.
Fontes consultadas:















